Primeira exposição individual do premiado designer argentino Cristián Mohaded no Brasil
Antes de ser escrita, uma técnica é contada. Passa de uma geração a outra pela palavra, pela observação e pelo gesto, de um corpo a outro, de uma mão a outra. Durante séculos, saberes artesanais atravessaram o tempo dessa maneira, guardados não em manuais, mas na memória daqueles que aprenderam a reconhecer uma fibra, tensionar um fio, cortar uma madeira ou repetir um gesto até que ele próprio se tornasse conhecimento.
Há muitas vozes na obra de Cristián Mohaded. Algumas pertencem aos inúmeros artesãos com quem o designer argentino vem colaborando ao longo de sua trajetória. Outras chegam dos territórios que percorre e das culturas que encontra. E há ainda aquelas mais silenciosas, que parecem vir dos próprios materiais — de suas resistências, imperfeições, memórias e possibilidades. Criar, para Mohaded, talvez comece justamente por escutar. Essa escuta inevitavelmente desloca a ideia de autoria. Se cada objeto carrega consigo uma multiplicidade de mãos, gestos e conhecimentos, onde termina o trabalho do designer e começa o do artesão? Para Mohaded, essa fronteira parece cada vez menos nítida — e é justamente nesse espaço compartilhado que sua obra acontece. Ao tornar visíveis os nomes, os rostos e as histórias daqueles com quem trabalha, o designer não os coloca à margem de sua criação, mas reconhece sua presença como parte constitutiva dela.
Ao ocupar a Casa Zalszupin, em São Paulo, a obra de Mohaded encontra uma casa que também guarda suas próprias palavras. Em seus espaços, diferentes tempos e geografias do design latino-americano se aproximam: a pesquisa de Jorge Zalszupin, profundamente ligada às possibilidades da matéria e à construção do mobiliário brasileiro, encontra a investigação de Mohaded. Ambos compartilham uma compreensão do design que nasce do encontro com saberes artesanais. Se Zalszupin percebeu nas madeiras brasileiras um campo para investigar formas, curvas, encaixes e novas possibilidades construtivas, Mohaded amplia essa escuta para os materiais e saberes dos territórios que percorre. Em ambos, a matéria não aparece apenas como meio para concretizar uma ideia previamente concebida: ela participa do processo, oferece possibilidades e impõe seus próprios limites. A casa torna-se, assim, mais do que cenário para esse encontro — é o lugar onde duas pesquisas, separadas pelo tempo e por diferentes regiões, vislumbram pontos de confluência.
É pela madeira que um desses diálogos se estabelece e dá início à exposição. Em Entropia, desenvolvida em colaboração com a ETEL, Mohaded parte de fragmentos de diferentes espécies de madeira acumulados ao longo dos processos de produção da empresa brasileira que chegam à obra trazendo consigo marcas de uma existência anterior. Em vez de apagar suas diferenças para submetê-las a uma forma homogênea, o designer trabalha a partir delas em parceria com os próprios marceneiros Junior Ferreira dos Santos, Savio Feitosa Pereira, Valdomiro Manoel de Souza e o lustrador Robson Luiz A. Correa, todos da ETEL. Veios, tonalidades, densidades e imperfeições tornam-se parte da composição. Há projeto, mas há também aquilo que escapa ao projeto; há intenção, mas existe espaço para que tal corpo responda.
Já em Entrevero essa memória conta sobre o território argentino. Iniciado a partir de uma extensa pesquisa de Mohaded por diferentes regiões do seu país de origem, a série de móveis e objetos nasce menos como uma coleção fechada do que como uma investigação em movimento, construída no encontro com técnicas, paisagens e, sobretudo, com as pessoas que detêm e transmitem esses saberes. O próprio nome oferece uma chave para compreendê-lo. Entrevero significa mistura, cruzamento, aquilo que se forma quando distintos corpos ou elementos se encontram e se confundem. Mohaded parece transportar essa ideia para o próprio modo de criar. Modos artesanais, processos industriais e desenho contemporâneo passam a ocupar um mesmo campo, sem que seja necessário apagar a singularidade de cada um. Mais do que incorporar o artesanato ao design, interessa-lhe investigar aquilo que pode surgir da relação entre diferentes formas de conhecimento.
Entrevero torna-se, assim, uma maneira de percorrer e ler a Argentina profunda. Cada elemento traz consigo uma história de transmissão; cada artesão, um conhecimento construído pela experiência e pelo gesto. O espaço que emerge desse percurso não é único nem homogêneo, mas composto por muitas vozes. E é no encontro entre elas — entre aquilo que se herda, aquilo que se aprende e aquilo que se transforma — que Mohaded constrói sua própria linguagem. Na cerâmica, esse encontro acontece com Santiago Lena e, no couro, com Jerónimo Coll, que aproximam o desenho contemporâneo de Mohaded de técnicas artesanais transmitidas através do fazer. A matéria carrega consigo não apenas suas propriedades físicas, mas uma história de gestos, usos e conhecimentos que antecedem o próprio objeto.
Essa linguagem parece ganhar uma dimensão quase orgânica em Protomorfosis. Apresentada originalmente no Museo Emilio Caraffa, em Córdoba, em 2023, a série parte de uma investigação sobre a origem e a transformação, dando forma a objetos que parecem habitar um estágio intermediário entre aquilo que já existe e aquilo que ainda está por vir. Frutos, galhos e raízes participam da construção dessas espécies imaginadas, nas quais a natureza deixa de ser apenas referência para tornar-se parte constitutiva da obra. Suas formas irregulares e irrepetíveis conduzem o desenho, enquanto os saberes dos mestres artesãos Renzo Galeano e Norma Álvarez participam de sua materialização. Mais uma vez, criar significa negociar: entre aquilo que a matéria oferece e aquilo que a mão transforma, entre natureza e cultura, entre arte, artesanato e design. Não por acaso, Mohaded associa Protomorfosis à possibilidade de gerar novos mundos e novos diálogos entre esses campos.
Se Entrevero e Protomorfosis mantêm os pés fincados no território argentino, outras colaborações ampliam essa cartografia para além de suas fronteiras. Nos tapetes e tapeçarias, a trama torna-se linguagem: fios se cruzam, técnicas se sobrepõem e o desenho se constrói a partir de conhecimentos que pertencem a outras localidades latino-americanas. Na colaboração com a colombiana Verdi, é o fio que volta a conduzir a narrativa. Fibras, tramas e conhecimentos transmitidos pelo fazer manual dão origem a tapetes e tapeçarias nos quais o desenho se constrói em diálogo com materiais profundamente vinculadas ao território colombiano. Na série Lazo, realizada em parceria com Lara Lladhon, é o tear manual que conduz esse encontro. O desenho nasce do entrelaçamento, do gesto repetido que transforma o fio em superfície e faz do tempo empregado na execução uma dimensão silenciosa da obra.
Talvez seja possível pensar a obra de Mohaded a partir daquilo que o antropólogo Tim Ingold compreende como um fazer que não impõe forma, mas acompanha fluxos e responde às possibilidades de seus materiais. Criar, nesse sentido, é menos determinar do que corresponder: perceber aquilo que já existe, entrar em relação e permitir que o encontro transforme também aquilo que imaginávamos produzir. Nas obras reunidas nesta exposição, matérias, técnicas, territórios e pessoas não aparecem como elementos subordinados a uma única autoria, mas como presenças que participam da construção da forma. São muitas mãos, muitas histórias, muitos tempos, muitas vozes. E a obra de Cristián Mohaded acontece justamente quando aprendemos a escutá-las.
ANA CAROLINA RALSTON
curadora
